Na época em que fazia meus curtos passeios pelas regiões de São José dos Campos, Caçapava, Jambeiro e Monteiro Lobato/SP, em cima de uma modesta bicicleta Caloi Cruiser (adaptada para 5 marchas), não imaginava que um dia iria realizar uma viagem pedalando por belas regiões da França.

A idéia surgiu em uma conversa com um amigo, na padaria de seu pai em São José dos Campos.
Uma viagem desse porte necessita de meses de planejamento. Nesse período é necessário providenciar passaporte, passagem, carteira de alberguista, seguro saúde; fazer o estudo sobre o percurso, e se for o caso, um curso básico da língua do país. Então, uns 9 meses após aquela conversa, lá fomos nós, meu amigo Flávio Craveiro, seu irmão Fernando e eu, embarcando para a França em busca de uma emocionante aventura sobre duas rodas.

Os primeiros dias em Paris foram de adaptação, passeios e pesquisas sobre preços e modelos de bicicletas. Optamos pela marca PEUGEOT por ser uma excelente bicicleta, ter um preço acessível e um fator importante: tinha assistência técnica no país inteiro para o caso de algum problema sério que tornasse necessário a utilização de garantia.

A nossa viagem foi divida em três etapas por ter sido realizada em diferentes localizações da França, com a intenção de podermos fazer uma análise da viabilidade de se realizar o cicloturismo no âmbito internacional e, em consequência, conhecermos de forma específica a cultura e infraestrutura da França para o cicloturismo.


Primeira etapa:
Centro Vale do Loire


Veja mais fotos na GaleriaDeixamos Paris cada um com sua mountain bike em direção ao Vale do Loire. Estávamos equipados com barracas, sacos de dormir, mapas e equipamentos básicos para manutenção das bikes.

Tudo era levado nas bolsas de alforje, que são bolsas especiais presas aos bagageiros das bicicletas.

Logo no primeiro dia, por falta de albergue, foi necessário fazer o primeiro acampamento da viagem e enfrentar chuva e frio, apesar de estarmos em pleno verão.

O fato de querermos conhecer com calma castelos, cidades e pessoas fazia com que pedalássemos em média, somente 60 Km/dia. Afinal tínhamos muitos dias de aventura pela frente.

De início, foi possível perceber, claramente, o respeito que os franceses têm pelos ciclistas. Nas estradas, quando ultrapassados por um automóvel, este sinalizava com a seta e a ultrapassagem era realizada a uma distância segura para evitar qualquer acidente. É o tipo de respeito que, infelizmente, não se tem aqui no Brasil.

Durante o nosso percurso pelo Vale do Loire encontramos vários grupos de pessoas, famílias e casais praticando o cicloturismo, um prazer ao alcance de todos, graças a excelente infraestrutura e cultura existente na França em relação ao ciclismo.
Para se ter uma idéia, é na França que acontece uma das mais famosas provas de ciclismo do mundo, o "Tour de France" .

Nessa região conhecemos os castelos de Beaugency, Chambord, Blois, Chaumont, Amboise, Chenonceaux. Esses castelos juntamente com muitos outros testemunharam grandes lutas travadas nessa região, e lembram a longa estada da corte francesa às margens do rio Loire.


Segunda etapa:
Loire Atlântico, Bretanha e Normandia


Devido ao excelente e pontual sistema de transporte ferroviário Francês, que conta com uma invejável infraestrutura para Veja mais fotos na Galeria transportar bicicletas, foi possível nos deslocarmos para o Loire Atlântico de onde continuamos a viagem pedalando em direção a Paris, passando pela Bretanha e a Normandia, região onde houve o famoso desembarque das tropas aliadas para libertar a França, então dominada pelos alemães, durante a segunda guerra mundial.

Enfrentamos novamente chuva, vento forte e muito frio em St. Brevin, a primeira cidade à beira mar em que passamos no litoral do Oceano Atlântico.

Passamos por diversas cidades e lugares, cada qual nos surpreendendo de alguma forma, seja pelo charme, pelo tamanho ou pelos momentos que vivenciamos durante a nossa passagem.

Um desses lugares foi um albergue que fica dentro de uma floresta chamada Paimpont (Fôret de Paimpont), onde tivemos que pernoitar depois de pedalarmos mais de 120 km, por causa de um erro na interpretação de uma placa.

Creio que fomos os primeiros brasileiros a se hospedar nesse albergue devido a sua difícil localização. Logo após as apresentações fizemos o nosso jantar e fomos dormir.

Já em Rennes (Bretanha), fomos entrevistados no albergue por uma pessoa dizendo ser repórter do jornal regional chamado Veja mais fotos na GaleriaOuest-France. Foi uma entrevista curiosa diante da desinformação do repórter em vários assuntos em relação ao Brasil.
Nos divertimos muito nesse albergue pois além do repórter havia outras pessoas cujas características eram divertidíssimas. Era o caso do dono da cantina, que quando se esquecia de algo, dava um tapa na própria testa e em seguida soltava um sonoro arroto.

Saindo de Rennes em direção a Normandia, já na estrada, tivemos uma agradável surpresa quando uma brasileira que viajava de carro e vendo nossa bandeira na bicicleta, nos parou para conversar. Ela estava emocionada com o momento e nos falou da saudade que sentia do Brasil, já que morava há dois anos na cidade de Le Mans.

"ICI COMMENCE LA NORMANDIE" indicava a placa na beira da estrada. Ali nos despedimos da Bretanha e mergulhamos na Normandia, região que oferece uma paisagem variada, indo desde belas planícies até as falésias, passando por florestas de pinhos, vales, rios e bosques, tudo isso transmitindo uma gostosa sensação de liberdade e tranquilidade.

Outra maravilha do local é a Igreja do Mont Saint-Michel, de estilo gótico, construída numa pequena rocha na costa do mar, é mais um presente da história da arte sacra na França, existentes na Normandia. Aqui, em determinados dias do mês, a maré sobe deixando a Igreja totalmente cercada pelo mar. Ficamos acampados nas proximidades por três dias, contemplando a magia desse lugar.

A grande aventura da viagem estava para acontecer na próxima cidade dos nossos planos.

Beny-Bocage é uma dessas tranquilas cidadezinhas do interior onde todo mundo se conhece.
Em uma estrada (hoje abandonada) que fazia ligação com a cidade vizinha, havia um viaduto (Viaduc de La Souleuvre) construído em 1889 por Gustave Eiffel (o mesmo construtor da Torre Eiffel) , e desmontado em parte em 1970.

Nos dias de hoje, a partir dos pilares que restaram foi construída uma passarela para a prática do salto elástico, à 61 metros deVeja mais fotos na Galeria altura, e lá de cima da prancha de salto, tem-se uma visão de um enorme vale verdejante a frente de quem vai saltar, misturando toda a emoção da beleza da paisagem, com a adrenalina no momento do salto.

"Un, deux, trois, quatre, cinq... Saute!" Nós três saltamos! É emoção à toda prova!

Para completar, Celine e Hamish, um casal que trabalhava na equipe de salto nos convidou para jantar em sua casa naquela noite.

A nossa última cidade nessa etapa foi Etretat, onde o mar, com a sensibilidade de um escultor, esculpe as falésias.
É um cenário maravilhoso, um capricho da natureza que fica a uns 100km de Rouen. Quem tiver a oportunidade não deve deixar de conhecer.

Terceira etapa:
Côte D'Azur


Após mais alguns dias em Paris, viajamos de trem para a Côte D'Azur no litoral do Mar Mediterrâneo, mais precisamente na
Veja mais fotos na Galeriacidade de Nice.

Em todas as etapas tivemos os devidos cuidados para evitar uma possível desidratação, mas no litoral fazia muito mais calor, e em consequência disso, foi necessário aumentar nosso consumo de água. A alimentação era basicamente feita com frutas, queijos, leite, yogurts, sucos e sanduíches.

Passamos por várias cidades famosas, entre elas Mônaco, Nice, Cannes, St. Tropez, St. Raphael, onde em cada uma delas havia muitas pessoas bonitas, que complementando com as belas paisagens do Mar Mediterrâneo, transmitiam o alto astral do verão no litoral.

No albergue de Toulouse fizemos amizade com duas alemãs Nicole e Cybile, que também viajavam de bicicleta. Nicole já conhecia o Brasil e falava bem o português. Combinamos de fazer um jantar no próprio albergue, elas ficaram encarregadas de fazer o jantar e nós de prepararmos uma deliciosa caipirinha.

A viagem transcorreu com sucesso total, nenhum pneu furado e não ocorreu nenhum problema mecânico. O mau tempo foi o único inconveniente em alguns momentos, porém todos eles foram superados sem maiores dificuldades. O último foi em um acampamento, onde um temporal nos obrigou a abandonar a barraca e permanecer o resto da madrugada encolhidos na área de lavar pratos.

Uma viagem de biclicleta é perfeitamente viável, tanto no Brasil quanto no exterior, desde que, antes se faça um bom planejamento.

No caso da França, fomos benefíciados pela infraestrutura, cultura e educação existentes no país em respeito ao ciclista.
Lá é proibido pedalar nas auto-estradas (Autoroutes) e essa concientização é de todos, inclusive dos motoristas que não permitem que isso ocorra.

Para mim, essa viagem e outras que realizei aqui no Brasil, certificam a emocionante experiência que é viajar de bicicleta, pela maior aproximação com as pessoas e sua cultura, pelo contato que se tem com a natureza, e pelo gosto de realizar uma grande aventura com o sentimento de liberdade estampado no rosto.


Página Inicial
Página Expedições