Em 1997 encontrei um poema de Mário Quintana: “A verdadeira arte de viajar”.

“A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e coração cantando!”

Quando fiz a minha primeira viagem de cicloturismo ainda não havia lido esse poema, mas confesso que sem saber de sua existência, foi exatamente assim que me senti. Livre, sorriso largo, vento no rosto, fugindo de casa com a alma aberta para abraçar o mundo, pedalando pelas estradas da França. Estava fascinado com tantas descobertas: culturas, histórias, pessoas, acontecimentos, paisagens... mais que isso, aos 28 anos também estava me descobrindo interiormente, senti que nunca mais deixaria de viajar de bicicleta.
Cada dia de viagem era um desafio, uma experiência nova, maravilhosa. Sensação difícil de saber nos meses de planejamento que antecederam o primeiro dia da viagem. Uma ansiedade gostosa invadindo os pensamentos. Uma “viagem pelo imaginário”, quase um filme buscando mostrar antecipadamente como seriam os lugares, as pessoas, o meu estado de espírito. Essas sensações sinto até hoje antes de começar uma viagem.

Se você não assistiu ao filme “Easy Rider”, assista. A mensagem principal do filme é a liberdade, e basta trocar as motos pelas bikes nas cenas de estradas e pronto, somos nós cicloturistas.
Ainda em relação ao filme, sugiro que esqueça as drogas.

Curiosamente, foi essa mesma viagem que me despertou uma outra emoção, a fotografia. Ela surgiu da necessidade que senti de querer registrar todo aquele mundo aberto a minha frente. Talvez tenha começado a brotar uma certa influência vinda do meu pai, que adorava fotografar quando eu ainda era garoto. Hoje, não me vejo mais saindo por aí, sem uma câmara fotográfica.

Como a fotografia, o cicloturismo também exige o ato de observar “as imagens e os acontecimentos” a nossa volta, pois do contrário, serão apenas como imagens latentes de um filme ainda não revelado, invisíveis para os nossos olhos.
Muitos não percebem, que apenas passam por lugares e pessoas e não as vivenciam. Talvez pela impaciência, pela distração ou mesmo pela pressa de simplesmente querer chegar ao destino.

Isso me faz lembrar de uma viagem de bicicleta pela Serra da Bocaina, cuja uma parte de sua área está no estado de SP. Depois da viagem, em uma sessão de slides com as famílias dos aventureiros, um deles vez por outra me perguntava: que lugar é esse? Nós passamos por aí?
Esse é aquele que sempre estava a nossa frente no percurso, preocupado em apostar quem ia mais rápido, quem chegava primeiro no topo da montanha... Talvez, inconscientemente, quisesse provar ter o melhor preparo físico.
Que pena! Nem mesmo seus olhos “fotografaram”, não “viajaram” pela bela viagem que fizemos.

Seu espírito de competição não lhe permitiu vivenciar o belo espírito do cicloturismo, que, entre outras coisas, é ter a calma, a humildade, a atenção e a sabedoria do companheirismo.

Por isso, conversem com o balconista do bar ou com aquela senhora sentada no banco. Faça uma brincadeira com a criança que está na calçada. Conheça os lugares e os monumentos. Tome um sorvete ao lado de sua bicicleta sentado num banco de uma praça movimentada. Tome um banho na cachoeira à beira da estrada, descanse com seu companheiro de viagem debaixo daquela árvore antes de seguir sua jornada. Fique mais tempo no local em que acaba de chegar e, se possível, desde os primeiros raios do sol, comece a sentir a vida desse lugar.

Vivencie, experimente e fotografe cada momento de sua viagem.

É por isso que o fotógrafo Henri Cartier-Bresson costumava dizer que sua câmara fotográfica era uma extensão de seus olhos. Passou a observar o mundo através dela.
E para os cicloturistas, será exagero dizer que a bicicleta é uma extensão do outro extremo do corpo? Afinal, passamos a conhecer melhor o mundo com os pés nos pedais.

Então para mim, que sou fotógrafo e cicloturista, fotografia e cicloturismo são artes que se completam.

Regressar de uma viagem sem imagens é quase como não ter viajado. O que se viu vai se perdendo com o tempo. Pouca coisa restará na memória. Uma fotografia é uma janela para um mundo de informações de um momento único, que já se modificou logo após clicar o botão da máquina fotográfica. Aquele exato momento já não existe mais no mundo real. A fotografia é mais que imagem, é a memória.

Hoje posso ver uma fotografia minha, tirada no tripé e disparada pelo automático depois de alguns ajuste feitos por mim.
Ver uma imagem é bem diferente de imaginá-la, mesmo assim a descrevo: - estou sentado num banco pintado de branco e minha bicicleta toda equipada encostada ao meu lado. A minha frente um lago imenso e um vulcão com seu pico coberto de neve, parece emergir das águas e atingir as nuvens.
Neste exato momento sou meu próprio espectador. Pois essa imagem retida no tempo, está bem aqui a minha frente, mostrando-se viva para minha lembrança e revelando um ponto exato da minha história.
Graças à fotografia posso mostrar às pessoas a verdadeira arte de viajar.


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