Por Walter Magalhães

Esta foi mais uma viagem de cicloturismo entre várias outras que já realizei. E às vezes a gente encontra algumas pessoas que marcam pra sempre nossa viagem, nos surpreendendo com seu modo de vida, com sua determinação e até mesmo com sua coragem.
Em janeiro de 2002 estava indo sozinho de bicicleta, de S.José dos Campos com destino a Guarapari (ES). O percurso seria de um pouco mais de 800km pedalando. Seria. A viagem não deu muito certo por alguns motivos, mas além da experiência que valeu a pena, voltei com algumas histórias para contar. A mais especial ou engraçada lhe conto agora.

Época de chuva, não esperava que fosse chover tanto como choveu naquela primeira quinzena de ano novo.
Bicicleta importada com 21 marchas, alforjes impermeáveis (bolsas que ficam fixadas nos bagageiros da bike), capa especial para chuva, equipamentos para camping, alimentos... Esses eram alguns dos meus principais equipamentos de viagem.

Orgulhoso por ter iniciado mais essa aventura, estava me sentindo um marinheiro navegando literalmente minha bike pelo acostamento da “via chuva”, ou melhor, via Dutra. Era muita água, vinda das nuvens e dos caminhões que passavam ao meu lado.
Era meu 4º dia de viagem e não sei porquê estava meio triste. Talvez um reflexo dos dias cinzentos e chuvosos. Por isso já estava na hora de alguma coisa acontecer para mudar meu astral. Foi aí que tudo aconteceu. Havia acabado de sair de Guaratinguetá (minha cidade natal) e parei no posto “Clube dos 500” para passar o protetor solar, já que pelo menos nessa manhã o sol surgiu por algum tempo com toda a intensidade dos dias de verão.

Curiosamente, um senhor que estava saindo do posto e entrando na via Dutra com uma bicicleta tipo “barra forte” acabou chamando minha atenção. Certamente era mais um morador da região indo para sua casa nas redondezas. Continuei viagem minutos depois e num posto logo mais à frente encontrei o “tiozinho”, tomando um guaraná.

Já com seus 45 anos de idade, o “tiozinho”, dono de um bigode ralo e com uma cara de desconfiado, trajava uma calça vermelha, camisa de tergal branca de mangas compridas em cujo bolso era possível ver que ali levava seus documentos e uma caneta BIC cor azul. Seu calçado era um par de sandálias azuis, aquelas que não soltam as tiras e nem têm cheiro, você conhece?

Bicicleta barra forte (sem marcha), um cadeado preso ao guidão e na garupa uma caixa verde coberta com um pedaço de plástico amarelo, igual àquelas em que os supermercados entregam as compras... Esses eram os seus principais equipamentos de viagem.

Parei minha bicicleta próxima à dele e ia comprar água quando dois caminhoneiros saem do restaurante e ao verem toda a minha bagagem foram logo perguntando: - nossa cara, aonde você vai com essa bicicleta desse jeito?
Orgulhosamente fui logo respondendo: - estou vindo de São José dos Campos e indo para Guarapari (ES)... 800Km.

– Nossa mãe! Você é maluco? Perguntaram.

– Foi aí que o “tiozinho” entrou em cena. Ele, que até então só observava a conversa, não se conteve e foi logo dizendo: - isso não é nada, estou indo para “Vitória da Conquista (BA)” nesta bicicleta... São mais de 2.000 km pedalando!
Caí na risada pelo jeito que ele entrou na conversa e depois ficamos os dois conversando e de tanto insistir em saber o porquê ele estava viajando de bicicleta, veio a resposta.

– Você tem pai, né?
– Sim! Respondi.

– Quando um filho nega um pedido do pai, ele tem um débito pela vida toda. Deus é nosso pai, não é?
– É.
– Pois bem, escutei a voz “Dele” me pedindo para ir ajudar uma família na Bahia.
Pensei então, como viajar sem dinheiro?
Por isso pedi a ELE para falar comigo através de uma pessoa e foi aí que um dia o pastor da igreja falou: “- Deus disse: – vá e cumpra sua missão, pois nada lhe faltará. Na hora certa obterá o que precisa”.
– Era Deus falando comigo através do pastor. Disse.
Não tive mais dúvidas, peguei a bicicleta e estou indo para a Bahia cumprir essa missão que Deus me confiou.
Agora mesmo no posto “Clube dos 500”, um senhor veio falar comigo e de repente ele me disse que sentiu uma vontade de me dar um dinheiro e me deu R$ 10,00. E nem havia pedido nada!

Após ouvir atentamente seu relato, tirei duas fotografias nossas com as bikes e fui me despedindo para seguir viagem. Na certa deixaria o “tiozinho” para trás, pois estava com uma bicicleta de 21 marchas e ele numa barra forte.

Já ia longe, concentrando-me para chegar ao fim de uma subida longa e foi aí que me lembrei de olhar para trás para ver se ainda enxergaria o “tiozinho”. Ele estava a uns 50 m atrás de mim e como se não bastasse foi me ultrapassando dando risada com seu jeito todo simples de ser. Aquele ar “ressabiado” do início deu lugar a uma outra pessoa totalmente confiante e sorridente.
Logo na descida à frente, ele novamente passou por mim. Sorriso largo, vento no rosto e com os olhos brilhando, gritou pra mim: – é uma delícia viajar assim!
Era a felicidade andando de bicicleta. Foi uma cena bonita de ser vista.

A partir daí fomos companheiros de viagem por todo o dia. Ficávamos alternando uma liderança despretensiosa com as nossas bicicletas, evitando ficar lado a lado no acostamento. A cada passagem de um pelo outro se fazia uma pergunta, uma observação ou um comentário qualquer. A reposta vinha na próxima ultrapassagem. Em alguns momentos ficávamos com as bikes emparelhadas e então “rolavam” algumas prosas curiosas.

Foi numa dessas que ele me fez o convite:
– Walter, quando a gente voltar da nossa viagem vamos no programa do "Ratinho"?
– Fazer o que lá? Respondi rindo.
– Falar que a gente viaja de bike e que fazemos isso por fé... Pensou um pouquinho e completou... Também por esporte, aventura... Ah! E a gente pode pedir uma motocicleta para cada um! O que você acha?
– E será que ele vai dar?
– Claro que dá!
– É, vamos ver então quando a gente voltar. Finalizei essa prosa com um sorriso achando graça da sua simplicidade.

Já em Cachoeira Paulista, como ia pegar uma estrada secundária para a cidade de Cruzeiro, o momento da gente se separar havia chegado. Dei para ele uma garrafa d’ água, uma garrafa de “Gatorade” e uma barra de “Nutry”. O homem quase chorou de emoção.
Qual o cicloturista que não se emocionou em sua viagem quando alguém lhe prestou algum tipo de ajuda?
Mesmo sem saber, foi ele quem havia me ajudado, pois com sua simplicidade me trouxe alegria num dia em que tudo parecia ser cinzento. Curiosamente, até o sol brilhou por mais tempo nesse dia.

Nos despedimos com um abraço, nos desejando boa sorte em nossa viagem. E ali, debaixo do viaduto da entrada principal da cidade, tomamos rumos diferentes. Ele seguiu pela via Dutra enquanto eu contornei por cima do viaduto. Lá de cima fiquei vendo aquele simpático senhor, o qual apelidei interiormente de “tiozinho”, desaparecer na curva lá embaixo, seguindo confiante para cumprir sua “missão”.

Ah! Sabe o que tinha na caixa atrás da bicicleta?
Na parte de cima da caixa havia uma outra muda de roupa, logo abaixo um pequeno cobertor e por último, bem no fundo, um "terninho".


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