Nasci no dia 02 de novembro de 1962, em Guaratinguetá, no interior do Estado de São Paulo. Minha mãe era professora e meu pai militar e por isso morei boa parte da minha infância na vila militar da Aeronáutica de Guaratinguetá.

INFÂNCIA EM GUARÁ
A vila era um lugar maravilhoso e distante da cidade. Ainda me lembro como parecia estar localizada no meio de uma floresta de tanto verde que havia por lá. As casas eram confortáveis, espaçosas e os terrenos eram enormes, divididos por cercas de bambu no quintal. Aliás, nosso quintal era cheio de árvores frutíferas, plantas, hortas... Muita terra. O jardim era extenso, gramado verde, interrompido apenas pelos caminhos de cimento para entrada da garagem e da porta principal da casa. As ruas eram tranqüilas e calçadas com paralelepípedos. Um ótimo lugar para a infância de qualquer criança.

Não vou dizer que aqui nasceu o meu desejo por viajar de bicicleta. Seria até romântico se fosse assim, porém nunca sonhei com isso em momento algum da minha vida até o ano de 1990, quando já tinha 28 anos. Mas foi nesse cenário vivido na minha infância que deve ter nascido o gostinho por aventuras.

AS PRIMEIRAS PEDALADAS
Como todo menino também tive meu velocípede, minha primeira bicicleta. Para aprender a pedalar também foi preciso o uso das rodinhas. Com ela comecei a dar as primeiras pedaladas, mas também foi com a bicicleta que tive vários acidentes engraçados que marcaram a minha infância.

O PRIMEIRO DE MUITOS...
Quando tinha seis anos de idade, magrinho e franzino, trombei de frente com uma "bicicletona" e uma senhora bem gorda sentada sobre ela. Foi um desastre! Cai no chão cheio de pedrinhas soltas e rasguei o braço na altura do cotovelo. Falava com a mulher, ainda meio assustado, sob efeito da trombada e reclamava que a roda da minha bicicleta havia entortado. Ao ver o sangue e a pele rasgada, saí correndo para casa e o discurso me referindo a pobre senhora havia mudado completamente com xingamentos como: "- SUA GORDA BALEIA, OLHA SÓ O QUE A SENHORA FEZ!" Ainda me lembro de estar sentado no banheiro, minha mãe prestando os "primeiros socorros", quando essa senhora apareceu na porta para pedir desculpas. Estava muito nervoso e dizia: "- FOI ESSA AÍ MESMO, FOI ESSA GORDA BALEIA QUE BATEU NA MINHA BICICLETA!" Coisas de criança. Meus pais só pediam desculpas por mim e pelo meu descontrole. Fui levado para o hospital da Aeronáutica, onde acabei levando uns 6 pontos no braço. Essa recordação não tem jeito, é eterna.

HUSTON, WE HAVE A PROBLEM...
Já bem mais "velho", com oito anos, o "homem" já havia colocado os pés na lua e o Brasil era tri-campeão mundial de futebol. Lembro-me da gente saindo às ruas em um dos carros da época , uma DKW, para comemorar como fazemos atualmente. Com tudo isso, o meu grande feito foi descer de bicicleta com mais dois amigos a "grande" ladeira do colégio da Aeronáutica que era de terra e cascalho. Os irmãos Marco Antônio e Marco Aurélio, filhos do Sr. Saraiva e D. Inês, amigos da minha família até hoje. Foram meus parceiros nessa "empreitada". Só havia duas bicicletas. A minha bicicletinha, uma Monark, e a Caloi "dobrável" (alguém aí lembra dela?) dos meus amigos. Antes da descida, o Marco Antônio pediu para ir com a minha bicicleta. A idéia era descer correndo em alta velocidade. Eu pedalando e o Marco Aurélio na garupa apoiado com as mãos em meus ombros. O resultado você já deve saber. Após ter atingido um bom embalo, gritei bem alto "GEERÔÔNIIMOOO!". Talvez quisesse fazer uma referência a algum herói da época. Mas foi bem depois do meu grito triunfante que a bicicleta começou a tremer e a roda dianteira passou por cima de uma pedra, e aí, o tombo foi inevitável. Na verdade, capotamos com a bicicleta. Ainda no movimento da nossa queda, rolando pelo chão, foi possível ver meu amigo passando com a minha bicicletinha dando risada do nosso acidente, que para ele deve ter sido muito engraçado. Mas engraçado mesmo foi a nossa volta para casa. Um pedalando e dando risada. Eu, além de empurrar a bicicleta escorava meu outro amigo que chorava muito. Ambos com os joelhos, cotovelos, queixo, nariz, testa... esfolados e sangrando. Eu chorava, dava risada, rezava "Ave Maria" e quando passava alguém fazia um apelo dramático pedindo por socorro... - moço, por favor, ajuda a gente, chama uma ambulância, nossa casa tá longe. Geralmente a pessoa dava uma risadinha achando graça, daquilo que para ela, parecia ser um exagero. Foi aquela bronca quando chegamos na casa do meu amigo. Lembro que na época, colocavam um pozinho nos ferimentos que davam uma vontade de coçar de tanto que ardia. E nós ficamos um bom tempo na varanda da casa assoprando os joelhos e os cotovelos tentando aliviar a dor e afastar as moscas que insistiam em pousar nos ferimentos.

ACIDENTE DE PERCURSO
Outra vez, quase na mesma época, pedalava uma bicicleta de adulto que era da minha mãe. A minha frente, duas mulheres caminhavam tranqüilamente. Ao me aproximar não consegui desviar e muito menos frear a bicicleta, e então acabei entrando com a roda da frente por entre as pernas de uma delas. Foi muito engraçado! Eu tentava parar, mas no embalo acabava empurrando a mulher que ia saltitando encima da roda dianteira. Quando finalmente paramos, a mulher me xingou muito e me mandou um belo tapa na cara. Quem diria, o primeiro tapa de mulher veio assim tão prematuramente, logo na infância.

A PRIMEIRA AVENTURA
Como disse, o gostinho por aventuras pode ter surgido nessa época logo após o convite do Sr. Saraiva, pai desses meus amigos. O Sr. Saraiva sempre foi e ainda é o tipo de pessoa animada e cheia de fazer brincadeiras com as pessoas.

- Criançada, arrumem-se para nossa aventura! Vamos descer um rio de jangada! Saímos escondidos de nossas mães, porque ele achava que se elas soubessem jamais iríamos realizar nossa aventura.

Foi aquela agitação. Nossa intenção era fazer uma jangada com troncos de bananeira. A aventura começou logo depois que terminou a rua da casa do meu amigo e começou o matagal. Fomos abrindo caminho até chegar à beirada do rio que passa atrás da vila militar e desemboca no grande rio Paraíba.

Levamos dentro de uma sacola de feira lanches para alimentar os "integrantes da expedição" momentos antes da nossa descida pelo rio, que era fundo e tinha uma correnteza relativamente forte. Cortamos as bananeiras e ajustamos cinco troncos entrelaçados por cordas nas duas pontas e no meio. Algumas horas depois, estávamos prontos para zarpar.

Lanchamos! Rezamos o Pai Nosso, pedimos para Deus nos abençoar e nos proteger. Colocamos tudo em cima, dividindo e equilibrando o nosso peso e os dos mantimentos. Seu filho mais novo à frente da jangada. Eu e o Marco Antônio mais ao meio, e o Sr. Saraiva, que levava um bambu verde enorme para servir de remo e também para direcionar a jangada, se posicionou atrás, juntamente com a sacola de mantimentos. Tudo começou muito bem, várias brincadeiras e desta vez eu juro não gritei "GERÔNIMO"!
A nossa aventura estava apenas começando.

A jangada começou a ganhar velocidade a cada momento que íamos descendo o rio. Logo após a primeira curva havia uma árvore que saía de dentro do rio e a nossa única opção era escolher um lado e passar pela árvore. Só que foi tudo muito rápido e dava uma certa impressão de que iríamos bater.
Então aí a nossa aventura teve outro desdobramento.

O Marco Aurélio se precipitou e se atirou no rio mesmo sem saber nadar. Para seu pai não restou outra alternativa. Mergulhou no rio para salvar seu filho, que assustado, se debatia para não afundar. Eu e o Marco Antônio fomos levados pela correnteza sozinhos na jangada sem controle.

O sr. Saraiva parecia o Tarzan nadando para salvar o filho e depois voltando para alcançar a jangada que acabou batendo na margem oposta logo abaixo em uma outra curva. Foram muitos gritos, cada um de nós procurando se orientar, dar instruções e evitar o pânico. O Aurélio foi salvo e deixado sozinho num barranco onde a mata era maior que ele. Eu e o Marco Antônio fomos deixados pelo seu pai em outro barranco rio abaixo, nas mesmas condições. O Sr. Saraiva desceu o rio sozinho com a jangada até achar um lugar seguro para amarrá-la e voltar pela mata e nos encontrar. Lembro-me que nos comunicávamos gritando um com o outro, mas era impossível nos ver. Eu e meu amigo decidimos encontrar seu irmão e saímos caminhando pela mata, rezando de medo, falando sobre os barulhos a nossa frente que poderiam ser cobras e às vezes dando risadas de algumas bobeiras que dizíamos um ao outro.

Por sorte, seu pai nos encontrou no meio do mato já com seu irmão resgatado, e então começamos nossa caminhada de uns trinta minutos até chegar a nossa jangada. O legal foi que sentamos na jangada e descemos o rio como havia planejado. Foi uma descida mais tranqüila e mais curta, pois boa parte do trajeto já havia sido feito pela mata. Mais adiante quando havia uma parte rasa e pessoas tomando banho, resolvemos encerrar nossa aventura por ali. Já bem descontraídos, desmanchamos a jangada, contando vantagens, rindo de situações engraçadas, do medo que outro sentiu, querendo parecer tremendos corajosos. Sem dúvida, essa foi minha primeira aventura. E acho que nos saímos bem com ela, levando-se em conta nossa idade, a dimensão do perigo e situações que fogem do nosso controle e que talvez não soubemos mensurar.

ALGUEM ANOTOU A PLACA?
Aos 10 anos de idade nos mudamos para a cidade. Na verdade nada mudou muito, ao não a casa, o bairro. Fomos morar na Vila Paraíba. Um bairro ainda novo onde muitas ruas não tinham mais que duas casas. Por isso ainda havia muita vegetação, uma lagoa enorme, brejos.

Uma vez fizemos uma pequena expedição de bicicleta levando mochila nas costas até a caixa d'água da cidade. Quando chegamos ao topo, avistando tudo lá de cima, fui tomado por uma sensação de conquista e por causa da construção antiga e do aspecto de ruínas, parecia que havíamos descoberto uma nova civilização. Nessa época a minha bicicleta tinha uma diferença, o freio de trás era "contra-pedal", ou seja, bastava girar o pedal para trás que o freio era acionado imediatamente com precisão.

Um dia voltando da escola de bicicleta, o bolso cheio de balas, vinha subindo a ladeira da minha rua e fiquei observando os movimentos da minha pedalada. Minha concentração foi tanta que me esqueci de olhar para frente. Era como se estivesse ficado hipnotizado pelos movimentos do pedal. De repente... BUMMM! Só escutei o estrondo de uma pancada e não vi mais nada. Havia acabado de subir, com bicicleta e tudo, no capô de uma Veraneio que estava estacionada em frente a minha casa.

Quando caí no chão, eram balas e doces esparramadas pelo asfalto. Bicicleta para um lado e eu para o outro, levantando assustado querendo "anotar a placa do carro que havia me atropelado". O pior é que as vizinhas estavam conversando no portão e nem me avisaram do que estava por acontecer.
Mas depois do acontecido...

- menino do céu! Como se eu tivesse caído mesmo lá de cima.

- O que você fez? Ficou maluco? Não viu um carro desse tamanho?

Desta vez não me machuquei, ficou apenas por conta do susto. Mas que foi muito engraçado, isso foi.

Assim foi parte da minha infância, e é lógico que não foi só isso, outras muitas coisas boas aconteceram. Mas acredito que essas histórias são mesmo para gente contar depois de grande e dar risada. Uma deliciosa forma de encontrar a criança e a pureza que existe dentro de cada um de nós.

O IMPORTANTE É COMPETIR
Quando entrei para o ginásio, comecei a jogar futebol de salão e esse passou a ser meu esporte favorito. Praticado nas horas de lazer ou em competições, aprendi a ganhar e a perder. Por ser um esporte de equipe, já observava a importância de se ter bom relacionamento, respeito e humildade entre os seus integrantes. Dependendo da equipe que se formava nos "rachas" do clube, já sabia se o meu time tinha chances de ganhar ou não, simplesmente por saber do comportamento de uma ou outra pessoa. Na maioria das vezes eu estava certo. Muitas pessoas conseguem anular seu parceiro por sua prepotência, arrogância e egoísmo. É assim em todas as áreas da nossa vida. Acho que todos podem aprender isso na infância e adolecência, mas poucos se dão conta dessas pequenas lições quando já são adultos.

Fiquei afastado parcialmente da bicicleta até os 27 anos de idade, mas é claro que ela sempre foi um dos meus meios de transporte. A partir dessa idade a bicicleta passou a fazer parte da minha vida com toda intensidade.

Aqui sim! Desde a primeira viagem comecei a sonhar e a tornar meus sonhos em realidade. Descobri meu caminho! Tudo que vivenciei naquela época está servindo para por em prática nesta nova atividade, o cicloturismo. Mesmo quando praticado sozinho, esteja certo que com aquela pessoa que está viajando numa bicicleta, há também uma equipe: sua família, seus amigos, relacionamentos, empresas... Todos envolvidos no mesmo objetivo, realizar o sonho de descobrir a vida.

Tudo isso você verá nesse site e espero poder lhe encontrar em uma aventura, exposição fotográfica ou quem sabe numa palestra sobre minhas viagens e a realização de sonhos... Nossos sonhos.


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